Exercício número 1


    Listinha básica de perguntas negativas (para tentar descobrir quem não pode ser, de jeito nenhum, esse cara: o texto).

    · De que tipo de texto não se trata (por exemplo, de uma carta de amor escrita por uma surfista sexagenária; de um panfleto não assinado e nojento; de um versículo do Corão; de uma tese de mestrado sobre moluscos; de um soneto de Camões; de uma notícia sobre a guerra no Iraque; de uma crônica de futebol de um vascaíno roxo......)?
    · De onde não foi copiado o texto (por exemplo, do diário íntimo de Shakespeare; do blog do papa Bento XVI; da porta de um banheiro público no Centro Velho; do Estatuto da Criança e do Adolescente; do encarte de um CD de Bach; de uma tumba egípcia; do depoimento de um condenado à cadeira elétrica nos Estados Unidos; do livro predileto da prima Kellen, que adora literatura...)?
    · Quando não foi escrito o texto, ou que marcas de tempo é possível dizer que ele não traz (por exemplo, os tempos verbais simples não indicam a presença da corte de Pedro II no ambiente; a gíria não é típica de punks da década de 1990; uma menina de 10 anos que vive hoje na República Tcheca não escreveria assim; o senhor Agenor Dondon, que morreu em Paris na década de 20, não conheceria alguns dos fatos descritos; o mobiliário não é do século XVI; o ritmo não lembra o cavalgar de uma biga romana; a referência à TV prova que não estamos na metade do século XIX; no dia 11 de setembro de 2002, de jeito nenhum...)?
    · Onde não foi escrito, ou que marcas de espaço é possível afirmar que ele não traz (por exemplo, a história não pode se passar num apartamento abafado da Copacabana de hoje; no país em que foi escrito não se fala russo para comprar pão; não há bois indicando a presença de uma fazenda ao redor; não há sinais de ser numa mesquita turca; duvido que seja no quarto gelado de um perseguido político na Alemanha de 1941, ou no Rio, 40 graus...)?
    · Quem não escreveu o texto, ou quem não está falando nele (por exemplo, o personagem não participa de uma fábula de Esopo; não é um ex-repórter cego ditando suas memória a sua sobrinha centenária; não é uma guria gaúcha expressando seu descontentamento com a política estudantil da facu; não são conselhos de um mestre zen para seu discípulo avoado; não é uma cortesã chinesa do século XII; não é o narrador-detetive de um romance policial; não é a entrevista de um autor estreante da nova novela das 7......)?
    · Com que intenção não foi escrito o texto (por exemplo, o rapaz não pretende, com esse texto, vender seu peixe ao empregador de uma fábrica de fósforos; a velhinha não quer fazer você chorar com seu depoimento sobre a infância burguesa; o loirão não está usando o texto para passar instruções a um espião do jornal concorrente; a musa não espera, escrevendo assim, se reconciliar com Deus; não foi para espantar seus males, cantando; não foi para enganar o MEC e vender muitos livros didáticos; não foi para ensinar você, leitor, a guardar silêncio, quando necessário; não foi para levar você, leitor, para a cama...)?
    · A quem o texto não se dirige (por exemplo, ao adolescente enfurecido do décimo andar, especificamente; às participantes do Terceiro Encontro Nacional da Mulher Indígena; à mulher amada; ao Eleitor Brasileiro na véspera de eleição presidencial; à adolescente ingênua que compra revistas compulsivamente; ao medalhão charlatão, desmascarando-o; ao ser humano, tão alienado e triste...)?

    Vou dizer como eu responderia a essas perguntas se estivesse diante do seguinte texto nu:


    O cabelo faz do homem um ser misterioso que carrega na cabeça, na parte do corpo que é mais nítida e mais marcada, uma coisa rebelde como um mar e confusa como uma floresta. Está quase fora do corpo, é uma espécie de jardim privado, onde o dono exerce à vontade sua fantasia e sua desordem. É qualquer coisa que cresce e que transborda como se estivesse livre do domínio da alma.

    · De que tipo de texto não se trata?
    Provavelmente não é um versículo do Corão, pois não há nenhuma referência a Alá.
    · De onde não foi copiado o texto?
    Provavelmente não foi copiado de uma carta de amor, porque não há referência ao ser amado.
    · Quando não foi escrito o texto, ou que marcas de tempo é possível dizer que ele não traz?
    Não é fácil dizer isso, pois o que diz refere-se a uma característica humana eterna. Ou será que não?
    · Onde não foi escrito, ou que marcas do espaço é possível afirmar que ele não traz?
    Também não é fácil responder a essa pergunta, pois cabelos existem em humanos de todos os continentes. Ou será que não?
    · Quem não escreveu o texto, ou quem não está falando nele?
    Não, não posso acreditar que tenha sido escrito pelo amigo doce e leal de um careca que detesta ser careca!
    · Com que intenção não foi escrito o texto?
    Provavelmente não foi escrito com a intenção de humilhar ninguém, pois sua beleza não chega a ser imoral.
    · A quem o texto não se dirige?
    Não se dirige apenas a mulheres, pois homens também têm cabelos rebeldes e confusos. Nem apenas a homens, pois mulheres também podem se encantar com jardins privados.

(PS: O texto é de Gustavo Corção. Copiei-o do site do filme Saneamento básico, de Jorge Furtado. Lá está dito que a fonte é: Três alqueires e uma vaca. Rio de Janeiro: Agir,1961.)

    Exercício número 2
   Vire a listinha básica de perguntas acima e mude de sinal: agora elas são afirmativas (para tentar descobrir quem, afinal, pode ser esse cara: o texto):
    · De que tipo de texto pode se tratar?
    · De onde pode ter sido copiado o texto?
    · Quando pode ter sido escrito, ou que marcas de tempo ele traz?
    · Onde pode ter sido escrito, ou que marcas de espaço ele traz?
    · Quem pode tê-lo escrito, ou quem está falando nele?
    · Com que intenção pode ter sido escrito?
    · Para quem pode ter sido escrito?