51.

     Não conheço nada, em todo o Drama, mais incomparável, do ponto de vista da Arte, ou mais sugestivo em sua sutileza de observação, do que o retrato que Shakespeare faz de Rosencrantz e Guildenstern. Eles são os amigos de colégio de Hamlet. Foram seus companheiros. Trazem consigo recordações de dias agradáveis passados juntos. No momento em que o encontram na peça, Hamlet está cambaleando sob o peso de um fardo intolerável para uma pessoa de seu temperamento. Os mortos saíram da sepultura para impor-lhe uma missão, simultaneamente muito grande e demasiado cruel para ele. Hamlet é um sonhador, e é chamado à ação. Tem uma natureza de poeta, e é chamado a misturar-se com as vulgares complexidades de causa e efeito, com a vida em sua realização prática, da qual nada sabe, não com a vida em sua essência ideal, da qual sabe bastante. Ele não tem a menor ideia do que fazer, e sua loucura é fingir-se louco. Brutus usou a loucura como uma capa para esconder a espada de sua finalidade, o punhal de sua vontade, mas para Hamlet a loucura é uma mera máscara para esconder a fraqueza. Ele vê nas graças e caretas uma oportunidade de adiar as coisas. Ele continua a jogar com a ação como um artista joga com uma teoria. Faz-se o espião das próprias ações e, ao ouvir suas próprias palavras, sabe que não são senão “palavras, palavras, palavras”. Em vez de tentar ser o herói de sua própria história, busca ser o espectador da própria tragédia. Descrê de tudo, inclusive de si mesmo, e contudo sua dúvida não o ajuda, pois não provém do ceticismo mas de uma vontade dividida.
     De tudo isso Guildenstern e Rosencrantz nada sabem. Inclinam-se e troçam e riem, e o que um diz, o outro repete com desagradável reiteração. Quando, por fim, graças à peça dentro da peça e ao namoro dos fantoches, Hamlet “captura a consciência” do rei e afasta o miserável homem de seu trono, Guildenstern e Rosencrantz não veem em sua conduta mais do que uma quebra bastante dolorosa da etiqueta da corte. Isso é tudo o que eles são capazes de atingir ao “contemplarem o espetáculo da vida com emoções adequadas”. Estão fechados ao seu segredo nada conhecem dele. Nem valeria a pena contar-lho. São copos pequenos, que conseguem conter um tanto e nada mais.
     Mais para o fim da peça, sugere-se que, pegos numa armadilha inteligentemente armada por outra pessoa, encontraram, ou pode ser que tenham encontrado, uma morte súbita e violenta. Mas um fim trágico desse tipo, ainda que tocado, por intermédio do humor de Hamlet, com um pouco da surpresa e da justiça da comédia, não é para pessoas como eles. Eles nunca morrem. Horatio, que, para “narrar corretamente Hamlet e sua causa aos insatisfeitos”,
     O afasta da felicidade durante algum tempo,
     E, neste mundo cheio de dureza, respira de dor,
morre, embora longe do público, e não deixa nenhum irmão. Mas Guildenstern e Rosencrantz são tão imortais quanto Ângelo e Tartufo, e deveriam estar no mesmo nível deles. São a contribuição da vida moderna para o antigo ideal de amizade. Quem escrever uma nova De amicitia tem de encontrar um lugar para eles e louvá-los em prosa tusculana. São tipos fixados para sempre. Censurá-los mostraria falta de gosto. Estão apenas fora de sua esfera: é tudo. Não há contágio no que respeita à sublimidade da alma. Pensamentos elevados e emoções elevadas são, por sua própria natureza, isolados. Aquilo que a própria Ofélia não era capaz de compreender não haveria de ser compreendido por “Guildenstern e o gentil Rosencrantz”, por “Rosencrantz e o gentil Guildenstern”.

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